Leila Cordeiro: Sou do Tempo

14/04/2017

Faz tempo…

“Sou do tempo em que as jovens ainda sonhavam e tinham com que ou quem sonhar. Sou do tempo em que a gente podia encostar nos carros estacionados na rua e bater aquele papo com a turma, de ir de ônibus pra praia com aquela incômoda e pesada cadeirinha na mão em segurança, sem ninguém incomodar…mesmo com todo o desconforto de um “busão”, naquele tempo a gente sabia que ia chegar na praia e poder curtir um sol legal, pegar um bronze divino sem se preocupar com “arrastões”, a propósito Arrastão naquela época só a música cantada por Elis Regina.

Sou do tempo em que a gente acreditava no amor, aquele verdadeiro, que faz a gente escrever cartas românticas, gravar músicas melosas na fita cassete para o namorado ouvir no carro e lembrar da gente, mesmo “em face de um maior encanto”que passasse na frente dele. Sou do tempo que a gente podia acreditar numa felicidade plena de ter uma casa, familia, filhos e emprego pra sustentar a turma e ver os rebentos, mais tarde, seguirem carreiras brilhantes. Sou do tempo do “vestibular” pra passar para escola pública onde o ensino era o melhor. Sou do tempo que ia às gargalhadas com as amigas a pé para a faculdade contando as últimas novidades de namoros e paqueras sem a preocupação de ter que entregar o relógio na próxima esquina, ou o que mais tivesse em mãos.

Sou do tempo da esperança, da vontade de vencer os obstáculos sem que ninguém puxasse nosso tapete, do tempo em que as pessoas respeitavam mais o espaço umas das outras. Sou do tempo que para sair na primeira página de uma publicação a pessoa tinha que ser mesmo famosa, uma celebridade de verdade, não apenas aquelas passageiras de oportunidade que vem e vão sem a gente saber como e porque.

Sou do tempo da alegria, da verdadeira Cidade Maravilhosa, “daquele abraço”, das torcidas inflamadas no Maracanã, mas nunca violentas…sou do tempo da verdade, das brincadeiras mais inocentes, de quando se ia pra boate apenas para dançar sem se preocupar em deixar a bebida na mesa com risco de ser adulterada por alguma droga. Sou do tempo que era bom namorar no carro, fazer corrida submarina, assistir filme no Drive In, andar de mãos dadas no calçadão da praia a qualquer hora comendo milho ou bebendo uma água de côco bem geladinha.

Sou do tempo que dava pra sair das festas e ver o sol nascer de um mirante com a certeza de depois voltar pra casa viva. Sou do tempo do inicio da TV colorida, da Kombi, do Sinca, do Fusca…sou do tempo da juventude saudável, ainda saudável. Sou do tempo da saudade, porque hoje, sem querer parecer uma amarga saudosista, a gente sente muita saudade das coisas boas pelas quais passamos e nos vemos diante daquela vontade de voltar no tempo e recomeçar. Sou do tempo que o tempo passava mais devagar sem internet, nem gadgets sofisticados. O máximo era a tela da TV, aquela que trazia os sonhos ao vivo pra dentro de nossas casas.

Enfim…sou do tempo que passou, mas que a cada dia resgato um pouco em mim mesma, afinal temos ainda na alma aquela verdade de sentimentos e por isso mesmo somos mensageiros da esperança e da busca de uma vida melhor apesar dos pesares da violência e de outros males desse século…sou do tempo…que não tem espaço nem hora pra começar e acabar, e por isso a gente pode criá-lo a nossa imagem e semelhança…sou do tempo!!!!!!”

Retirado do post da Leila Cordeiro no Facebook.

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