O Amor segundo Vinicius de Moraes

20/12/2017

Vinicius é amor do início ao fim.

“Mas vamos deixar de tretas, eu te adoro, te entendo, te venero, tu és minha vida, meu tudo, é diferente”. São com essas palavras que Vinicius de Moraes, poeta e escritor brasileiro que fora mestre em fazer do amor o sentimento mais completo do universo, confessa, em uma rápida carta, o seu sentimento para sua “macaquinha adorada” Tati, uma de suas esposas mais queridas, lá pelo ano de 1938.

E é exatamente com esse trecho que, com toda a licença e ousadia que me cabe neste espaço, vamos falar não só desse sentimento tão intrigante que é o amor, mas também de um dos livros mais lindos publicados neste ano. Lançado pela editora Companhia das Letras já no início do segundo semestre, “Vinicius — Todo Amor” é uma daquelas obras que leva o leitor por uma viagem de versos, palavras, trechos e, claro, por todos os amores do poeta que reinventou o verbo amar.

Foi em uma de suas últimas entrevistas que Vinícius (1913–1980), em poucas palavras, se definiu como um “inveterado namorador”. Apesar de já não estar tão aberto como fora anos antes dessa confissão, o poeta não ousou em esconder a sua inimizade com a solidão e, principalmente, a facilidade nata em amar o outro. E, de fato, a história não nos deixa negar: ao longo de sua vida, casou-se nove vezes e, talvez, tenham sido essas experiências que fez com que ele compartilhasse o seu mundo conosco por meio de poemas, músicas, cartas e crônicas.

São versos famosos como os de “Pela luz dos olhos teus” ou os de “Eu sei que vou te amar”, musicadas tempos depois de suas publicações por diversos intérpretes da música popular brasileira, que estão presentes em “Vinicius — Todo Amor”, obra, aliás, que convida os leitores para um profundo mergulho no que há de mais intimo dentro da literatura e escrita de Vinicius: a sua humanidade.

Acima de tudo, Todo amor — livro que, além de revelar detalhes tão importantes e tão desconhecidos de Vinicius ao público geral — mostra que o universo musical esteve mais próximo do poeta do que imaginamos. Afinal, quem nunca ouviu os versos // Chega, de saudade // a realidade é que sem ela não há paz // não há beleza // É só tristeza e a melancolia // Que não sai de mim, não sai de mim, não sai // tocando em alguma estação de rádio de um táxi ou no saguão de um aeroporto entre uma conexão e outra?

Vinicius é amor do início ao fim. Mesmo que, no tribunal das redes sociais, muitas pessoas percebam ou entendam alguns de seus poemas — e com razão — como partes integrantes de um sistema que, muitas vezes, reforçam o discurso de objetificação de gêneros, é preciso tentar entender também seus registros como uma tentativa de liberdade às insanidades do ser humano. E, com toda a ousadia que citei mais acima, nos atrevemos a dizer mais: se o leitor der-se ao trabalho de desfrutar esse livro na sua totalidade, vai, sem dúvidas, compreender (será?) o segredo desse cubo mágico gigante que é o amor.

A obra, organizada com diversas imagens e apresentada pelo poeta Eucanaã Ferraz, é ainda um convite para que, assim como Vinicius, o leitor vá para o longe, contemple e observe as nuances existentes dentro de cada um. A alegria. A tristeza. O ciúme. O apego. A devoção absoluta. O arrependimento. A distância. A expectativa no outro. A expectativa em nós mesmos. É, sem dúvidas, ainda mais complexo — é um espaço para questionarmos a pluralidade daquilo que está intrínseco em nós: o amor.

E quem souber a reposta disso, por favor, não fique calado!

Até agora, depois das 280 páginas lidas, uma pergunta não para de rondar a cachola aqui: seria, então, os escritos de Vinicius, eles mesmos, a nossa própria encarnação?
Vai saber!

“Vinicius — Todo Amor”
Organização: Eucanaã Ferraz
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 280

por Igor Gouveia